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29.9.09

Como nossos pais

Na década de 70, quando a pimentinha Elis cantava versos melosos, evidenciando com seu timbre forte as belezas de um futuro cheio de novidades, havia um clima estranho no ar. Guardada a licença poética do compositor, o passado, àquela época, era uma velha roupa colorida, tal qual uma imagem de contornos perdidos e que já não servia mais à juventude. A revolta e a subversão eram facilmente percebidas nos anseios de uma geração que buscava, a todo custo, a tal “modernidade”, cuja representação máxima se encontrava não no enobrecimento pessoal e coletivo, mas na oposição aos valores e costumes que lhes haviam sido transmitidos.

Esse choque de gerações é uma característica comum aos entremeios das relações humanas desde que o homem se conhece por tal. E é provável que assim continue por muito tempo mais. Mas o que aconteceria se das vozes desses jovens de outrora retirássemos o tino libertário, se puséssemos para escanteio o furor revolucionário e se fugíssemos da nuvem de aspirações políticas que envolviam a sociedade daquela época, em específico?

Se a complexa teia de relacionamentos pudesse ser posta à parte de todos os fatores sociais externos que a envolvem, cairíamos numa realidade em que pais e filhos continuam com suas adversidades, seguem com suas picuinhas e ainda têm seus pontos de vista opostos. Neste novo cenário, pais continuam sendo pais (tão somente porque um dia filhos já foram) e filhos dessa forma seguem (até o momento em que os seus próprios descendentes vêm ao mundo), simplesmente porque, em essência, ambos têm muito mais em comum do que poderiam imaginar os primeiros e do que gostariam os segundos.

Seja no retrato revolucionário da juventude dos anos 70, através do olhar incompreendido da Geração cantada por Renato Russo (“você diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais”) ou nas palavras de real cumplicidade nascidas do dueto entre um Marcelo D2 reformado e seu filho (“eu me desenvolvo e evoluo com meu filho, eu me desenvolvo e evoluo com meu pai”); a verdade escancarada é uma só: no fundo, no fundo, pais e filhos são sempre iguais. Ainda que fatores sociais e culturais interfiram nesse relacionamento, a condição de igualdade entre pais e filhos se faz (e continuará por muito tempo) presente.

Diante disso, só nos resta a certeza de que, mesmo frente às peculiaridades inerentes à contemporaneidade de todas as épocas, se a canção citada lá no começo desse artigo fosse feita nos dias de hoje, talvez Elis e toda uma geração de “novos filhos” (todos nós) cantássemos os conhecidos versos de um modo diferente. Orgulhosos, então, evidenciaríamos que “perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” é, não uma dor, mas nosso maior prazer.

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17.7.09

CHEGOU!!!

Na noite dessa sexta-feira eu tive um surpresa que me fez ganhar o dia!
Aliás, acho que não só o dia.
Essa surpresa me fez ganhar o dia, a noite, as tardes, vários meses, muitos anos, talvez até parte de toda uma vida.

Quando ceguei na casa de mamãe, ela me disse que os Correios tinham levado algo para mim.
Ao ver o que era, deparei com essa surpresa.
É verdade, meus amigos: havia um envelope pardo com meu nome escrito nele.




Do lado de fora, no canto superior esquerdo, a identificação de quem me o havia enviado: "Fundação José Saramago". Ao ver essa indicação, já soube de que se tratava.

Mal contendo a empolgação, abri-o.

E ali dentro daquele envelope acolchoado (seu interior era todo forrado com plástico-bolha. Nunca tinha visto dessa tecnologia por aqui) foi que o encontrei:



Meu exemplar de "Ensaio Sobre a Cegueira", do escritor português José Saramago: o mesmo livro que, lá nos idos dias de março, eu enviei para Lisboa, aos cuidados da agora colega Rita Pais, juntamente com um pedido encarecido para que ela levasse esse livro ao encontro do próprio Saramago, para que ele o autografasse.

Virei a capa com pressa, mal acreditando naquilo que meus olhos ainda não viam. Mas eu tinha certeza que estava ali, em algum lugar.

E, de fato, lá estava. Na segunda página, na folha de rosto da obra: um dizer simples, apenas 6 palavras e uma data. Uma dedicatória que, de tão singela, pode não transmitir às pessoas toda a importância e todos os significados que carrega consigo; mas que, para mim, vale muito!


("Para Diego Vital, cordialmente, José Saramago. 30.VI.2009")



Agora eu já tenho um autógrafo do Saramago, algo que desejei por muito tempo.
O que isso vai mudar em minha vida?
Provavelmente nada.

Mas pode ter certeza que esse provável nada já me vale tudo!

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16.7.09

Um Dom Natural

Tomando por base o seu nível mínimo de complexidade, o sorriso é tido como a representação física das condições psicológicas de alguém. Quando uma pessoa está feliz, ela sorri. Quando sente-se bem, sorri. Para demonstrar simpatia, sorri. Ao achar graça em alguma coisa, dá gargalhadas histéricas. Fisiologicamente falando, estirar os lábios num sorriso é atitude extremamente simples: para tanto, são utilizados menos músculos do que os necessários para sustentar uma expressão fechada, sisuda.

Olhando assim, sorrir parece fácil. Tão simples que chega a ser absurda a idéia de imaginar uma pessoa que não seja capaz de dar um único sorriso durante todo o dia. Mas essas pessoas existem. Aos montes. E nos surpreendem. Por outro lado, tão surpreendente quanto estas são aquelas pessoas que têm o sorriso como algo tão natural quanto os cinco dedos das mãos. Para essas pessoas, a felicidade transparece sem fazer força. E a simpatia, por sua vez, aflora pelo corpo, culminando numa simples contorção de lábios.

Ontem, enquanto voltava do trabalho, cruzei com um desses exemplares exóticos. A mulher não devia ter mais de 35 anos. Pelo que pude perceber, ela também voltava do trabalho. A certa altura do caminho, a calçada estava obstruída por um cavalete, que obrigava os pedestres a fazerem um leve desvio, contornando aquele trecho pela lateral da pista principal. Eram apenas alguns passos, talvez não mais do que cinco metros.

Nós nos cruzamos no final do meu percurso, quando eu pulava sobre um canteiro para voltar para a calçada. Ela vinha no sentido contrário. Eu estava distraído, mas o sorriso que ela tinha no rosto me chamou atenção. Na verdade, fiquei intrigado com aquilo. Será que ela estava feliz por ter que pular o canteiro? Talvez pensasse “Viva! Um pouco de aventura no meu dia!”. Quem sabe, lembrasse de alguma brincadeira que alguém no trabalho tinha feito. Num rápido lapso de maldade, cheguei a cogitar a hipótese de empurrá-la sobre o canteiro, só para ver se aquele sorriso continuaria ali.

Foi então que me dei conta: nada do que eu fizesse poderia mudar a situação. Porque aquela mulher não tinha apenas um sorriso no rosto. Ela tinha um dom. Um dom simples, prático, que sequer exige o esforço de muitos músculos da face.

Ela tinha, sobretudo, o dom natural de sorrir.

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11.6.09

Atração Fatal

Tales de Mileto – apontado como o iniciador da filosofia – foi o primeiro a fazer referência a substâncias capazes de atrair outras substâncias. Sua descoberta, contudo, foi relegada ao esquecimento até que, no século XIX, Oersted e Maxwell formularam as leis que fundamentam o estudo do eletromagnetismo.

Pois ainda hoje, mesmo com o passar do tempo e os avanços da humanidade, dentre todos os elementos que possuem propriedades magnéticas, não foi possível encontrar dois que tivessem uma relação tão forte quanto aquela que atrai portas de banheiro fechadas e bexigas cheias. É impressionante! Basta fechar a porta de algum banheiro público (na empresa, na escola, num estádio) para que, logo em seguida, apareça alguém apressado, batendo na porta, querendo que você interrompa seus afazeres para lhe ceder o lugar.

Caso queira constatar essa certeza, faça o seguinte teste:

Vá a algum restaurante. Não precisa ser no horário de pico. Vá em algum horário alternativo, quando as mesas não estiverem cheias e os garçons ainda conseguirem circular livremente (dessa forma, os efeitos do magnetismo serão melhor evidenciados). Escolha uma mesa. Dê preferência àquelas que ficam em frente ao banheiro.

A seguir, sente e peça um suco. Beba tranquilamente. Quando terminar, peça outro. Nesse meio-tempo, vá prestando muita atenção naquela porta. Perceba como ninguém se aproxima. Veja como ela fica lá, isolada, quieta, calada como se estivesse adormecida. Continue degustando seu suco. Ao sentir as primeiras pontadas na bexiga, resista! Um terceiro suco ainda vai bem. Faça o pedido. Seque o copo. A porta segue lá, roncando.

Quando sua bexiga estiver lacrimejando, renda-se ao básico prazer da natureza. Vá ao banheiro. Feche a porta. Comece a contar. Tente chegar até 10. Dificilmente você passará de 5 antes que alguma mão desesperada surja tentando abrir a porta de qualquer maneira. Se isso acontecer e a pessoa do lado de fora começar a dar murros de raiva, simplesmente ignore. E procure se lembrar do velho Tales, que lá na Grécia Antiga não tinha a menor idéia do incômodo que sua descoberta poderia causar.

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10.6.09

Um gato no elevador

Estava frio. Mas isso não vem ao caso.

O importante é que eles entraram no elevador e apertaram o botão do térreo.
A descida desde o décimo andar pode não ser das mais rápidas, mas certamente é uma daquelas aventuras que proporcionam às pessoas grandes chances de se deparar com fatos inusitados.
Eles iriam sair para jantar.

Na metade do caminho, o elevador pára.
Sem sobressaltos, um avanço normal nos afazeres da máquina.
Alguém no 6º andar o havia chamado.
A porta se abre.
Entra uma mulher jovem, na casa dos seus 30, 35 anos. Trazia um gato siamês no colo.
Cumprimentou-os:
"Boa noite."
Ao que responderam solícitos:
"Boa noite."
Mal ouviu a resposta, a nova passageira virou-se para o animal que trazia ao colo, interpelando-o com doçura:
"Olá gente estranha. Olha só como eu sou tímido." - e ao falar, balançava o gato nos braços, como se daqueles lábios felinos pudessem sair tão humanas palavras.
Dali pra frente, o silêncio instalou-se dentro daquele elevador.

Ele, no entanto, antes de chegarem ao térreo, teve tempo de abrir seus registros e fazer uma anotação mental. Pensou:
"Quando uma louca entra no elevador com um gato no colo e te chama descaradamente de ´pessoa estranha´, muito provavelmente já passou da hora de fazer a barba e o cabelo".

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2.6.09

Cabral e o Inusitado

A definição para “inusitado” é facilmente encontrada em qualquer dicionário. O Aurélio, por exemplo, define o termo como “[algo] não usado; não usual; incomum, estranho”. De onde essa palavra surgiu eu não sei, mas tenho sérias suspeitas de que o culpado pelo seu surgimento foi o Cabral (o Pedro Alvarez). O “inusitado” deve ter chegado ao Brasil junto com a expedição do navegador lusitano. E mesmo com toda a história conhecida sobre os fatos que precederam o descobrimento da Terra de Vera Cruz (a expedição, a saída da rota, a chegada em terras desconhecidas, o primeiro contato com um povo que falava uma língua estranha), talvez o fato mais inusitado de toda a vida de nosso patrício d´além-mar tenha ocorrido séculos depois de sua morte.

Conta o escritor Mário Prata (em crônica originalmente publicada na revista Istoé de 06/11/1999) que, em 1992, ele e uma amiga estavam em Santarém (a 100 quilômetros de Lisboa) quando, ao passar em frente a uma igreja, avistaram na entrada uma pedra antiga, com um texto de Pero Vaz de Caminha, justamente o texto do descobrimento.

— O Pero Vaz deve estar enterrado nessa Igreja. Vamos lá! – disse-lhe a amiga, que foi prontamente atendida.

Ao entrar, perguntaram à senhora que cuidava do local se a informação procedia.

— O Pero Vaz de Caminha não está aqui, não. Quem está enterrado aqui é o Pedro Alvarez Cabral. Lá na frente, ao lado direito do altar-mor.

Foram até o local indicado e, realmente, ali estava um túmulo com a epígrafe "Aqui jaz Pedro Alvarez Cabral, descobridor do Brasil". Fotografaram tudo.
De repente, a amiga dá um grito que ecoa pela igreja:

— Não acredito! Não acredito! Olha aquilo!

O que aconteceu em seguida, o próprio Mário relata:

“Olhei. Juro que é verdade. Num pequeno altarzinho, acima do túmulo, uma pedra de mármore com a seguinte inscrição: A Pedro Alvarez Cabral, descobridor do Brasil, a homenagem de Paulo Salim Maluf.”

É, Cabral... se não fosse você, a luz de nossa ignorância jamais nos permitiria compreender a grandeza de tudo aquilo que é inusitado.
Preciso dizer mais?

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10.3.09

Uma dor

Dói. Vê-la dizer, aos prantos, que não estava preparada para ficar sozinha. Dói muito!

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Repeat after me

Repita comigo: "Esmagar o panífício!"

E tente não rir.

São palavras engraçadas...

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9.3.09

Retratos da Vida

E ele, 30 anos na cara, homem feito, escreveu em seu diário, numa sexta-feira 13 qualquer:

"A primeira ida ao proctologista a gente nunca esquece..."

FIM

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3.2.09

Mudanças

Ele era um cidadão de bem. Nunca se envolvia em discussão. Preferia dar-se por vencido nas querelas da palavra do que tentar argumentar com quem jamais reconheceria seus próprios erros.
Mas um dia ele se cansou. Resolveu mudar.
Decidiu não mais deixar-se vencer quando sabia ter certeza.
Na primeira vez que pôs em prática essa decisão, arrumou briga com um ex-colega de trabalho.
Hoje, está enterrado em um cemitério no subúrbio da cidade.
E ninguém mais visita sua tumba.

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23.8.06

Canto à Insegurança

Sou fruto sereno da insegurança
e por incertezas não sei quem eu sou
Ainda que na vida não saiba aonde vou
no peito trago guardada a esperança

Cada respiro me enche de agonia
por um lado, benventura, por outro, a morte
Talvez quando entregue for à própria sorte
descubra feliz tudo aquilo que não conhecia

Caminho entre sombras, sem formas nem cor
perdido vagando na vida sem direção
Enquanto no íntimo ainda pulsa um coração
que não se sabe domado de dor ou de amor.

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11.7.06

Silêncio, por favor! Eu gostaria de me pronunciar...

É estranho...

O passado está aí - lugar onde permanecerá por toda a eternidade -, mas ainda assim há momentos nos quais é extremamente difícil lidar com ele.

Pior mesmo quando se fica estranho ao lidar com o passado dos outros.

É até meio óbvio...

O que passou, passou! Certo?
Sim! Procuremos nos certificar que sim!

Pois da mesma forma é certo que tudo que passou um dia volta...
E nem adianta se precaver.
Porque, quando o passado - seja o nosso ou o dos outros - voltar, nós não estaremos preparados.
Nós nunca estamos!

E aí ele nos tomará de assalto, passará seu braço sobre nosso pescoço, afagará nosso rosto e num sopro nos fará adormecer, sonhando com o futuro, já que ele, o passado, não é mais sonho... ele é realidade! E está ali, aqui, e em todo lugar, por mais que tentemos nos convencer de que seu momento já passou...

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26.6.06

Dos números, aos números

0... vazio... o começo de tudo...
1... campeões... todos reunidos sob um símbolo de vitória...
2... quem não se lembra do "v" de paz e amor de Woodstock... dois dedos em riste apontando o firmamento...
3... patetas, porquinhos, desejos concedidos pelo gênio da lâmpada...
4... eram os Beatles, impossíveis de esquecer... John, Paul, George, Ringo...
5... a mão que destrói é a mesma que afaga...
6... time... esporte coletivo... cada qual com sua função específica lutando pelo sucesso de uma nação...
7... delírio para os mentirosos... posse desta classe... o por quê?... realmente não se sabe...
8... número qualquer?... pouco provável...
9... os anos passados atrás de um banco, prestando atenção aos ensinamentos daqueles que tentavam nos tornar pessoas razoáveis...
10... simetricamente perfeito... único entre os primeiros... rodeado de significados...
11... artilheiro... toque final... a bola toma o caminho das redes...
12... apóstolos... seguidores... talvez idealistas que morreram seguindo aquele a quem tomavam como salvador...
13... resquício místico... quantas ambigüidades e superstições não esconde...
14... descanso... mesmo eu mereço...
15... segundos... a quarta parte do minuto...
16... idade de jovens utópicos que seguem ideais revolucionários...
17... limiar entre responsabilidade e imaturidade... quem consegue conter a vontade de ver o relógio girar mais rápido?... quase, quase...
18... pronto... sexo, drogas e rock ´n roll... todos são responsáveis por seus atos... será?
19... acontecimentos importantes... números que antecedem outros números... necessário para a localização no tempo...
20... antigo século... destruição, substituição de valores... o material ultrapassa o humano na escala de amores...
21... mistério... o que será?... novas descobertas?... novas realizações?... a destruição total, real, imediata?...
22... dois patinhos na lagoa... por que não dois gansos?... ou dois marrecos?...
23... Papa João... Dito de extrema importância para a instituição... o motivo, não sei...
24... alvo de chacota... tolo preconceito...
25... bodas de prata... reafirmação da promessa de vida eterna... parabéns a quem os completa...
26... tie break... o vencedor é conhecido...
27... branco... nada mais vem à cabeça... talvez seja hora de parar...
28... superação... recomeço...
29... sol... não sei bem ao certo, mas os algarismos me fizeram lembrá-lo...
30... dias... tempo para realizações... mais 8 x e uma nova vida surge...
31... palavras... apenas palavras...

(Esta é uma homenagem que eu faço aos tempos de antigamente, quando qualquer pedaço de papel ainda era espaço mais do que suficiente para se perder na magia e na conquista das palavras... Engraçado é quando, tempos depois, a gente encontra estes papéis perdidos em algum lugar e tudo parece assim tão diferente, mas ao mesmo tempo tão igual...)

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14.6.06

Tecla "sapo"

Havia um indivíduo - a quem chamaremos "Ele" - cujo maior sonho de consumo era comprar uma nova televisão. Uma daquelas que nem as que Ele via nos anúncios de TV, cheia de botões coloridos, com 2001 funções. Uma dessas TVs que, com apenas 1 toque, permitem que se veja com mais de 300 linhas de definição as curvas perfeitas de Cameron Dias - sua atriz preferida; e uma antiga paixão platônica. Mas, além disso, Ele queria algo mais. Não poderia ser uma TV qualquer, por mais colorida, cheia de funções e por mais curvas que desse à pobre Cameron. Ele queria se diferenciar. Ele queria... uma tecla SAP!

Num dia em que acordou estranhamente disposto, Ele resolveu sair para comprar a nova TV. Não precisou andar muito. Entrou na primeira loja que viu:

"Bom dia. Gostaria de ver as TVs." - pediu, educadamente.

"Nós temos estes modelos aqui." - respondeu o prestimoso atendente, apontando para uma estante na qual se viam todos os aparelhos expostos lado a lado. "O senhor tem preferência por alguma marca?"

"Não, não. A marca não importa. O que eu gostaria mesmo é de um aparelho que tivesse tecla SAP."

"Como?" - respondeu o representante da loja, meio assustado.

Mais assustado, no entanto, ficou Ele ao perceber como seu simples desejo fora capaz de confundir o atendente.

"Tecla SAP. Aquela tecla que se usa pra colocar as legendas nos programas." - explicou, esperando que, dessa vez, pudesse ser entendido.

"Hmmm..." - grunhiu o atendente, ainda em dúvida, antes de completar. - "Ah, meu senhor, isso o senhor tem que ver com a assistência técnica. Porque acho que nenhum desses nossos aparelhos vêm de fábrica com essa tal tecla sapo."

E assim, logo na primeira loja, na primeira tentativa, Ele se rendeu ante o despreparo de certas pessoas que não sabem o mínimo necessário para atender bem o cliente e para resolver suas dúvidas.

E Ele desistiu da compra.

Voltaria para casa. Quem sabe na internet seria mais fácil encontrar uma TV já saída de fábrica com "essa tal tecla sapo".

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13.6.06

Crônica de um esperancídio anunciado.

Aqui.
Mais para o meio.
Isso.
Está perfeito!
Segure firme!
Se você continuar tremendo, não vai funcionar.
Sim! Eu sei o que faço! Confie em mim!
Pelo menos dessa vez...

Parece loucura, não é?
"Por que diabos ele confia sua vida a outra pessoa?" - você deve estar se perguntando.
Ah, meu amigo, pode ter certeza que, se soubesse a resposta, não estaríamos nesta situação.
E você não estaria aí, tremendo e suando frio.

Chega. Chega!
Não adianta chorar e resmungar.
Estou decidido.
Suas palavras serão um desperdício.
Há muito tempo tomei esta decisão...

Certo. Já é hora.
Ei, olhe nos meus olhos!
Não se deixe abater agora!
Escute: confio em você!
Só você pode me ajudar nesse momento!
Entendeu?
Vamos! Me diga que entendeu!

Tudo bem.
Chegar de falar.
Agora é a última vez que nos falamos.
Saiba que sempre confiei em você.
Que por sempre terei você como uma pessoa de alta estima, não importa o que eu esteja lhe pedindo para fazer...

Agora, mais pro meio.
Isso.
Perfeito!
Fique firme, ok?
Então... é agora.
Puxe o gatilho!

BAM!

(silêncio)

...

...

Tudo bem.
Sei que não foi sua culpa.
Eu que errei...

O único jeito de me salvar não era mesmo apontando esta arma para minha testa.
A única forma de melhorar, seria atirando mais embaixo.
Atirar aqui, no coração!
Quem sabe assim eu conseguiria matar essa esperança...
E tudo ficaria bem.

Não se preocupe.
Não foi sua culpa...

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6.6.06

Sobre a paixão

Ninguém ainda foi capaz de encontrar uma explicação capaz de categorizar a paixão. Seus segredos ainda são um mistério. Tudo o que dela se conhece é a doce torpeza, o sereno estado de felicidade, a infinita calmaria com quem permeia nossos corações. Mesmo que no campo da racionalidade existam todas as razões do mundo para criticá-la, a paixão é superior a tudo. Ela nos transforma em pura emoção, liberando nossos instintos mais primitivos, permitindo que nos encontremos com o que de melhor há em nós mesmos.

Então, para podermos vivenciá-la melhor, fiquemos em silêncio por um instante. Passemos a aceitar essa nova leva de sentimentos que habitam nosso interior. Porque quem sabe dessa forma, apesar de não encontrarmos as respostas que todos procuram, possamos descobrir aquelas razões intrínseca, as que fazem sentido quando observadas por nosso ponto de vista, e que, justamente por isso, são a mais perfeita "desculpa" para entregarmo-nos a este sentimento.

- Originalmente esse post se propunha a comentar um outro assunto. Ele, no entanto, acabou tomando rumo próprio. E a força de suas palavras nos trouxe a este fim. Tão intensas foram as emoções explicitadas que não tivemos como não seguir por este novo caminho. E o assunto "original"? Bom, este fica para o próximo post! -

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5.6.06

O Muro

Sentavam no muro de uma antiga fábrica. Era um dia qualquer, de muito sol. A conversa fluía normal, num ritmo cadenciado. Eram amigos. Todos. Sentiam-se confortáveis uns cons os outros. Ainda assim, não puderam evitar aquela sensação de esgotamento, seguida por um medo incontrolável. De uma hora para outra, talvez no intervalo entre duas frases distintas, o céu se fechou. As nuvens até então sumidas fizeram-se presentes. Olharam para o céu. Com este simples ato mecânico, permitiram que suas bocas quedassem abertas.

Muito mais atenção teriam voltado às nuvens caso não tivessem sido despertados por aquele som de passos marchados que, segundo após outro, tornava-se mais forte. Baixaram o rosto. O que viram deixou-os assustados. Ao seu lado direito, perfilados, um grupo de 15 homens, todos trajados de preto, cabelos raspados, ostentava suas armas de metal, fitando com ódio um grupo rival - provavelmente outra facção - disposto na mesma formação de guerrilha. O cenário era assustador. Por detrás de cada uma dessas formações, elevava-se uma coluna de policiais, fardados, fortemente armados, embuídos do nobre dever de servir e proteger. Infelizmente, naquela situação, difícil seria saber se mais valeria proteger aos outros ou a si mesmo.

Dali de cima do muro, viram tudo acontecer. Ao grito daquele que parecia ser o líder, as duas facções foram ao encontro uma da outra, o espetáculo de horror teve início. Os homens tornaram-se feras. O ódio tornou-se palavra-chave. O ar ficou carregado pela mistura pesada de sangue e dor. Gritos, socos, chutes, corpos caindo, últimos suspiros, expiações... De tão intenso, tudo foi muito rápido. Por fim, só o que restou foi o mar de sangue cobrindo o precário calçamento daquela tarde comum... E os corpos, misturados à terra, que já não mais traziam o ódio no coração, não pelo fato desse sentimento ter se transformado em algo melhor, mais bonito; mas simplesmente pelo fato de já não haver mais um coração pulsando em seu peito.

E os jovens, sentados no muro, já não tinham mais o que conversar. Dois, os que não conseguiram correr a tempo, haviam sido pegos pela guerra ensandecida. Outros dois, confundidos pela polícia com integrantes das facções, estavam sendo encaminhados para a DP, de algema nos punhos, com o peso de uma vergonha alheia pousada sobre seus ombros.

O único que sobrou, nesse momento, fitava o céu. Não havia nada mais a ser feito. Tudo o que lhe restou foi a chance de olhar o céu uma vez mais antes de adormecer, procurando entender, tentando conter as lágrimas que a todo custo tentavam florescer por seus olhos para misturar-se ao sangue derramado de seus amigos. Quando acordasse, talvez tudo seria diferente...

Aquele fora apenas um sonho. Mas, de alguma forma indescritível, o sonho ruim lhe pareceu muito mais palpável do que a própria realidade.

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18.5.06

Cenas do cotidiano

Era inverno. Ele estava sozinho. Era quarta-feria, dia de futebol na TV. "O que fazer?" - pensou. "Pipoca? Não. Muito comum. Pipoca é pro verão". A resposta lhe veio quando avistou uma bacia tampada ao lado dos vidros de biscoito: pinhão! Uma panela de pinhão, um copo de vinho, sala, colchão no chão, uma coberta, que poderia haver de melhor? Claro que ele não era um grande amigo das artes culinárias. Talvez por isso tenha domorado para encontrar o lugar onde ficavam as panelas (sua esposa nunca se preocupara em explicar-lhe mistérios como este). Escolheu o tipo de panela que mais se adequava à sua necessidade.

Enchê-la de água, adicionar sal e acrescentar as preciosas iguarias não foi muito difícil. Acender o fogo e espera 30 minutos até ficar tudo cozido, tampouco. Na verdade, o único problema que teve foi na hora de... abrir a panela. Porque todo mundo sabe, "essas panelas de pressão têm uma tecnologia praticamente de outro mundo"! Ele destravou o cabo e pôs a tampa para dentro da panela (como vira uma vez num desses programas de culinária que passam na TV). Ele puxou. A tampa não saiu. Puxou outra vez. Nada. Ela estava trancada. Só lá pela quinta vez em que tentou sacar-la com um puxão - quando já pensava em quebrar a panela - percebeu que, talvez, a tampa estivesse presa. Ligou para a esposa. "Alô? Amor? Tenho um problema sério! Não... não... Está tudo bem comigo. Quero dizer, quase... Você sabe aquela panela de pressão? Pois então, como faço pra tirar a tampa?". A gargalhada ouvida do outro lado da linha talvez fosse uma medida de quão ridícula era a situação. Ele se irritou. Desligou o telefone. Decidiu continuar tentando sozinho. Tentou por mais uns 20 minutos - na TV, o jogo já havia entrado em seu segundo tempo. Puxou, repuxou, retorceu, acendeu o fogão mais uma vez (lembrando-se das contraçõs e expansões aprendidas nas aulas de física), girou, deu voltas, tentou passar sabão nas extremidades... nada adiantou. No desespero, pegou uma lixa e começou a limar uma das bordas da panela de alumínio. Com a borda lixada, então, conseguiu arrancar a tampa. Sucesso, enfim!!!

Pena que, de tanto esforço, a vontade que tinha de comer pinhão desparecera completamente. Em seu lugar, apenas o cansaço. Largou tudo em cima da pia, e foi para o quarto. Sem pinhão, sem vinho, com o orgulho esfacelado por aquela invenção que certamente só poderia ser coisa de outro mundo: realmente odiava panelas de pressão!

Ele foi dormir.

E nunca mais tocou nesse assunto.

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20.4.06

Um lugar qualquer

Quando o silêncio volta e tudo o que se escuta é o vazio por onde antes passaram palavras exaltadas, só o que sobra é aquele aperto que nos obriga a empapuçar os olhos com lágrimas.

Quando esse silêncio volta e tudo que se escuta é o próprio coração acelerado, só nos resta o infantil desejo de ver o tempo voltar. Tudo seria melhor naquele tempo em que os problemas simplesmente não existiam porque tudo se resumia à felicidade de um abraço. E não havia a necessidade de encontrar algo além desse abraço.

Quando o silêncio volta e tudo o que se escuta é o grito sofrido das próprias lágrimas, só o que nos resta é esse sincero desejo de voar. De voar para bem longe daqui, para um lugar qualquer...

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5.10.04

"Eu Etiqueta" - C. Drummond de Andrade (parte 3)

Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

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